quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Participação dos bispos brasileiros no Sínodo .

sinodo2013Prosseguem no Vaticano os trabalhos do Sínodo dos Bispos com o tema “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã”. O encontro, que começou no dia 7 de outubro, só termina no próximo dia 28. Do Brasil, participam os delegados da CNBB: cardeal dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo (SP); dom Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana (MG); dom Sergio da Rocha, arcebispo de Brasília (DF); dom Leonardo Ulrich Steiner, bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB; e dom Benedito Beni dos Santos, bispo de Lorena (SP), nomeado pelo Papa.

Os trabalhos do Sínodo começaram com a escolha dos nomes para compor a comissão que vai redigir a mensagem final. O presidente, Cardeal Giuseppe Betori, arcebispo de Florência (Itália), e o vice-presidente, dom Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila (Filipinas) foram nomeados pelo papa Bento XVI. Os outros dez membros eleitos pelos sinodais foram conhecidos na sessão sinodal do dia 12 de outubro, e entre eles está dom Sérgio da Rocha.

Alguns dos delegados brasileiros já realizaram alguma intervenção no Sínodo. No dia 10, o arcebispo de Brasília recordou aos padres sinodais que os catequistas ocupam um lugar especialmente importante no dever de transmitir a fé e educar à vida cristã. Segundo dom Sérgio, necessitamos desenvolver com maior esforço a iniciação cristã como autêntico processo evangelizador. Segundo o resumo das intervenções publicado no site da Santa Sé, dom Sérgio recordou o Instrumentum laboris, ao dizer que à luz do Magistério pós-Conciliar, é importante “configurar para o catequista um ministério estável e instituído dentro da Igreja”.

No dia 13, dois brasileiros realizaram intervenções na aula sinodal. O cardeal Odilo Scherer destacou que a nova evangelização necessita de novos evangelizadores, muito mais que de novos métodos e recursos técnicos. E caracterizou estes evangelizadores como pessoas de profunda experiência de fé, alimentada na comunhão com Deus.

Na mesma sessão, o secretário geral da CNBB fez referência aos sujeitos da transformação da fé. Dom Leonardo recordou que a nova evangelização deveria considerar os jovens como “novos agentes”. De acordo com o bispo, os jovens devem ser preparados na catequese, mediante a participação na vida da comunidade de fé e as experiências missionárias, para poderem atuar na comunidade e na sociedade, especialmente no mundo da instrução, os meios de comunicação, internet, a arte e outros.

No dia 16, foi a vez de dom Geraldo Lyrio, que afirmou que a Nova Evangelização deve levar as pessoas à experiência profunda do encontro com Jesus Cristo vivo. O arcebispo recordou que a Sagrada Liturgia é um dos lugares privilegiados para este encontro. Com base nos documentos conciliares, afirmou que a liturgia é fonte e lugar de evangelização, pois nela Deus fala a seu povo e Cristo anuncia seu Evangelho. Concluiu sua predica afirmando que a nova evangelização depende da capacidade de fazer da liturgia a fonte da vida espiritual.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Jovens compõem atividade pela democratização do acesso à comunicação

Jovens compõem atividade pela democratização do acesso à comunicação
A Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores – RENAJOC promoverá na próxima quarta-feira, 17 de outubro, o Dia Nacional da Juventude Comunicativa ou Dia C. Adolescentes e jovens realizarão diversas atividades de mobilização, articulação e proposição pelo direito humano à comunicação pelo País. Não só com a perspectiva de promover espaço de acesso à liberdade de expressão, mas também de produção, veiculação e disseminação de conteúdos e informação livres.
Na capital, Renajoc e o Conselho Virajovem Brasília – DF realizarão a Conferência Livre: Solte o Verbo no Dia “C”!! #Pelo Direito à Comunicação. O espaço pretende reunir adolescentes e jovens do Distrito Federal para discutirem questões que envolvem a democratização de acesso à comunicação, a produção de juvenil coletiva e outros assuntos que contextualizam o tema. O debate contará também com a presença do Intervozes, Coordenadoria de Juventude do GDF,  Correios – DF e outras organizações envolvidas com juventude e/ou comunicação.
Participe!
Data: 17 de Outubro
Local: Auditório do Museu Nacional dos Correios
SCS – Setor Comercial Sul, Qd. 4, Bl A, nº 256 – Asa Sul – Brasília DF
Horário: 13h
Contato: Danuse Queiroz – danusequeiroz@gmail.com / 61 8539 6067 ou Webert da Cruz – b.webert@hotmail.com / 61 8122 0411
Curta no Facebook: facebook.com/SolteOVerboNoDiaC
Mais informações: renajoc.org.br 
Fonte: Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores
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19ª Romaria das Águas celebra a dignidade dos catadores

19ª Romaria das Águas celebra a dignidade dos catadores


Com a presença de centenas de pessoas reunidas na Usina do Gasômetro, nas margens do Guaíba em Porto Alegre, na tarde do dia 12 de outubro, Irmão Antônio Cechin desembarcou com a imagem de Nossa Senhora Aparecida das Águas, acompanhado de moradores das Ilhas e da Vila Santa Terezinha (dos Papeleiros). Nesta edição a Romaria teve um diferencial que foi uma atividade da Pastoral da Ecologia na Vila Santa Terezinha, conhecida como Vila do Papeleiros, onde residem trabalhadores da reciclagem, catadores que trabalham, alguns em coletivos e individualmente catando resíduos nas ruas de Porto Alegre. 

O fundador da Romaria e da Pastoral da Ecologia e mentor e organizador da Romaria das Águas, Irmão Cechin, sempre costuma dizer que Nossa Senhora Aparecida é a padroeira dos catadores, ela que fez a opção de vir ao encontro dos últimos, e por isso queria fazer da Romaria a celebração do Dia do(a) Catador (a). Neste ano, a 19ª Romara das Águas teve a sua programação normal nas Ilhas e teve também um momento celebrativo na Vila dos Papeleiros, de onde vários catadores partiram em procissão e ingressaram no barco que transportava a imagem da Padroeira.
Irmão Antônio Cechin fez referência ao fato da aparição de Nossa Senhora em Aparecida do Norte, no ano de 1717, quando foi encontrada pelos pescadores e em Porto Alegre a imagem foi encontrada no lixo, num galpão de catadores. "É a mesma mãe Maria que vem quebrada, ao encontro dos últimos. Em 1717, foi em Aparecida do Norte, vem para resgatar a dignidade dos negros e aqui em Porto Alegre, vem ao encontro dos Catadores, resgatar novamente a dignidade de seus filhos e filhas".

terça-feira, 9 de outubro de 2012

É preciso ser mais e ter menos

Aos poucos, as cadeiras do Anfiteatro Pe. Werner, na Unisinos, foram ocupadas por pessoas de diferentes países, mas o conferencista da noite, Prof. Francisco Whitaker, não precisou viajar muito para estar presente. O cofundador do Fórum Social Mundial é natural do Brasil, mais precisamente, do interior de São Paulo.

Chico Whitaker (foto abaixo), já concedeu entrevista à IHU On-Line, inclusive ao completar 80 anos, em 2011. O tema central de sua conferência no Congresso Continental de Teologia, ontem à noite, intitulada “Outro mundo possível e o contexto latino-americano”, foi o Fórum Social Mundial.



O arquiteto relembrou a história de todo o processo realizado, que teve início em Porto Alegre, quando a perplexidade causada pela queda do muro de Berlim começava a ser superada, após se tornar um espetáculo midiático. “A queda do muro de Berlim foi a vitória de um sistema sob o outro”, assinalou. Segundo ele, houve a tentativa de implantar um regime novo que se chamava socialista, mas também houve muitas manifestações contra aquilo que pretendia ser as principais intervenções do sistema.

Um breve histórico do Fórum Social Mundial

O primeiro Fórum Social Mundial foi realizado em Porto Alegre. Conforme Whitaker, a escolha da cidade foi feita pelas organizações que propuseram o Fórum porque esse era um local onde ocorria um bom exemplo de um outro tipo de democracia, vivido em função do orçamento participativo. A partir daí é que houve um grande interesse mundial das pessoas virem a Porto Alegre para conhecer esse processo participativo. “Nos organizamos para receber poucas pessoas, mas vieram 20 mil, e este foi o momento de dizer: outro mundo é possível”, declarou o professor. Na verdade, as 20 mil pessoas que vieram à Porto Alegre exigiram que se continuasse esse processo e começaram a ver que era possível realizar encontros de outros níveis, regionais, continentais, etc.

“Não pretendíamos fazer a mudança no mundo. Queríamos uma nova maneira de fazer política, essa era uma das nossas orientações, e essa maneira nova implicava em uma série de aplicações”, aponta. No segundo Fórum compareceram 50 mil pessoas, no terceiro, que ainda foi realizado no Brasil, compareceram 100 mil pessoas. “Em 2004 conseguimos que organizações indianas fizessem o Fórum lá na Índia, com 120 mil pessoas e em 2005 participaram 155 mil pessoas cadastradas, novamente em Porto Alegre. “Todo o processo do Fórum é realizado de “baixo para cima”, os temas são trazidos pelos participantes”, comenta o cofundador.

Outro mundo é possível, necessário e urgente

De acordo com Whitaker, se perguntarmos para as pessoas se outro mundo é possível, a maioria delas vai responder que não, pois “é uma mensagem que ainda não chegou em toda a parte”. “A consciência do necessário e urgente não existe para muitos”, frisa o professor. “Muitos têm pressa, porque esperam do Fórum Social mais do que ele pode dar. A luta do mundo vai ser o resultado da ação de muitos atores, inclusive ações individuais de muitas pessoas”, desabafa.


“E como fica a tal de mudança do mundo? Onde fica a superação do capitalismo?”, questiona o conferencista. O problema nosso é “como chegar lá, pois nós não estamos sabendo como fazer isto”. Para Whitaker, muitos governos se dobram para serem eleitos e existem para fazer dinheiro, “é um sistema centrado no "Rei" dinheiro”. Visto que um ponto muito enfatizado é o problema do consumismo. “Na verdade, a queda do muro de Berlim foi apresentada como a quebra da democracia, vitória do socialismo real, mas a grande vitória que houve foi a da lógica do sistema capitalista e essa lógica é impessoal, não é uma classe social, mas à serviço de uma classe social dominante”, frisa o arquiteto.

O luxo dentro do consumismo

O professor frisa que há uma competição impiedosa entre todos que estão tentando ganhar dinheiro. “Os mesmos produtos de luxo que são vendidos aqui, também são vendidos em todos os outros países do mundo. A publicidade se tornou uma enorme máquina de produção do consumo. O que importa não é mais o planeta Terra, mas fazer e ganhar dinheiro”, salienta.

“Passamos pela máquina do consumo sem perceber, mas a indústria maior é a da moda. É incrível a quantidade de roupas que as pessoas precisam trocar nos seus armários todos os anos. Queremos ganhar cada vez mais para consumir mais. Somos escravos dessa lógica, tanto os ricos, quanto os pobres”, menciona Whitaker.

Infelizmente, a propaganda do sistema faz com que o “ter” seja mais importante do que o “ser”, e atualmente tudo é feito para durar menos. Essa é a opinião de Francisco Whitaker, que finaliza sua conferência questionando-nos: “Liberarmo-nos do consumismo não é a melhor maneira para tornar mais claro como funciona o sistema e a urgência de substituí-lo?”.

Brasil e Mercado de Agrotóxicos

Brasil: o mercado internacional dos agrotóxicos. Entrevista especial com Victor Pelaez Alvarez

“Enquanto as vendas mundiais, entre 2000 e 2010, crescem em torno de 90%, as vendas brasileiras crescem 190%. Em termos de importações mundiais, o Brasil também está entre os seis maiores importadores mundiais de agrotóxicos e, nos anos 2000, o crescimento brasileiro foi o maior de todos”, informa o pesquisador.

Confira a entrevista.

Considerado o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, o mercado brasileiro corresponde “a quase 1/5 (um quinto) do mercado mundial no volume de vendas” de herbicidas, algo em torno de 19% do mercado internacional. De acordo com Victor Pelaez Alvarez, “entre 2001 e 2010, a produção agrícola das oito principais commodities consumidoras de agrotóxicos aumentou 97%, a área plantada aumentou 30% e a venda de agrotóxicos aumentou 200%”. Esses dados, ressalta, demonstram a intensificação do uso do produto nas lavouras brasileiras, que “estão usando mais agrotóxicos por hectare”.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Alvarez afirma que o ingresso do Brasil no mercado de agrotóxicos segue uma “lógica comercial”, considerando que treze empresas são responsáveis pela maior parte da produção de pesticidas no mundo. “Há uma troca entre unidades de produção de uma mesma empresa, na medida em que elas têm uma lógica de produzir em grande escala. Algumas plantas podem se especializar na produção de determinados agrotóxicos em nível mundial para reduzir o custo de produção”, esclarece. Segundo ele, no Brasil o comércio é mais “intenso no sentido de exportar agrotóxicos para os países da América Latina, principalmente para a Argentina, onde é destinado 50% das exportações”.

Diante do consumo consciente, que cresce nos países mais desenvolvidos, Alvarez questiona a posição brasileira de investir massivamente na expansão agrícola baseada no uso de agrotóxicos. “Por ser um grande exportador agrícola e exportador para alguns países que têm maior rigor no controle dos produtos, como a União Europeia e os Estados Unidos, o Brasil deveria ter um cuidado maior em termos de harmonização, visto que ele tem autorizado uma série de agrotóxicos que são proibidos nesses países”, aponta.

Victor Pelaez Alvarez é graduado em Engenharia de Alimentos pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, mestre em Política Científica e Tecnológica pela mesma universidade, e doutor em Sciences Economiques pela Université de Montpellier I. É professor associado da Universidade Federal do Paraná – UFPR.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – A partir das pesquisas do observatório, o que é possível apontar sobre o mercado internacional de agrotóxicos? Qual é a participação do Brasil nesse mercado?
Victor Pelaez Alvarez – Desde 2008, estima-se que o Brasil seja o maior mercado mundial de agrotóxicos, ultrapassando os Estados Unidos. Em 2010, o mercado brasileiro correspondia a quase 1/5 (um quinto) do mercado mundial no volume de vendas. Então, o Brasil tem 19% e os Estados Unidos tem 17% desse mercado. Outro aspecto importante é o desempenho. Enquanto as vendas mundiais, entre 2000 e 2010, crescem em torno de 90%, as vendas brasileiras crescem 190%. Em termos de importações mundiais, o Brasil também está entre os seis maiores importadores mundiais de agrotóxicos e, nos anos 2000, o crescimento brasileiro foi o maior de todos. O Brasil cresceu cerca de cinco vezes, algo em torno de 487% das importações brasileiras de agrotóxicos. Eu estou considerando somente os produtos formulados, utilizados na agricultura.

Depois do Brasil, o consumo de agrotóxicos é mais intenso na Alemanha e no Canadá. Esses dois países consomem cerca de 114% dos agrotóxicos.

IHU On-Line – Por que há interesse no mercado brasileiro? Por quais razões o uso de agrotóxicos triplicou na última década?
Victor Pelaez Alvarez – Entre 2001 e 2010, a produção agrícola das oito principais commodities consumidoras de agrotóxicos aumentou 97%, a área plantada aumentou 30% e a venda de agrotóxicos aumentou 200%. Então, houve uma intensificação do uso. Enquanto a área plantada aumenta 30%, as vendas de agrotóxicos aumentam 200%. É possível ver que há uma intensificação do uso de agrotóxicos e isso é muito preocupante, porque estão usando mais agrotóxicos por hectare. Isso acontece por vários motivos, entre eles está o fato de o agricultor estar mais capitalizado e, portanto, capaz de comprar e investir mais em insumos. O outro aspecto diz respeito ao uso continuado de agrotóxicos, principalmente de um único deles, que é o glifosato. O uso contínuo causa dependência, e é preciso usar uma quantidade sempre maior de agrotóxicos na lavoura. Além disso, é necessário utilizar agrotóxicos diferentes do glifosato, e agrotóxicos que são mais tóxicos.

Então, há uma inversão, ou seja, um retrocesso tecnológico, porque todo o discurso para vender a soja transgênica resistente ao glifosato é de que ela iria reduzir o consumo de agrotóxicos, iria proporcionar o uso mais racional de um agrotóxico menos tóxico, mas na medida em que aumenta a resistência, é necessário combinar o glifosato com outros herbicidas mais tóxicos. O Paraquat [1] é outro produto que está sendo utilizado no Rio Grande do Sul. É um produto classe 1, em termos de grau de toxicologia, pois é extremamente danoso.

IHU On-Line – De quais países o Brasil importa e para quais exporta agrotóxicos? O que suas pesquisas demonstram sobre a regularização desses produtos?
Victor Pelaez Alvarez – O Brasil foi um grande importador de agrotóxicos. É importante saber que treze empresas multinacionais controlam cerca de 90% do mercado mundial. Essas empresas estão subsidiadas no mundo inteiro, e as importações e exportações que acontecem estão ligadas a um comércio entre empresas e filiais de empresas multinacionais, localizadas em várias regiões do mundo. Não é necessariamente o Brasil como país que está importando ou exportando agrotóxicos. Ele está ligado a essa lógica de comércio entre empresas multinacionais.

O fato de o Brasil exportar agrotóxicos significa que algumas multinacionais aqui instaladas exportam para outras empresas. Por exemplo, a filial da Monsanto exporta para outra filial na Bélgica ou nos Estados Unidos. Há uma troca entre unidades de produção de uma mesma empresa, na medida em que elas têm uma lógica de produzir em grande escala. Algumas plantas podem se especializar na produção de determinados agrotóxicos em nível mundial para reduzir o custo de produção. No caso do Brasil, o comércio é mais intenso no sentido de exportar agrotóxicos para os países da América Latina, principalmente para a Argentina, onde são destinados 50% das exportações. Há um intenso comércio entre os países vizinhos. A Bélgica e os Estados Unidos são grandes países de destino das exportações brasileiras. Na realidade, esses são países de destino porque algumas multinacionais especificamente fazem esse comércio de matriz e filial. Da mesma forma, o Brasil também é um grande importador dos Estados Unidos. Essa é a lógica comercial.

IHU On-Line – Como compreender a posição do governo brasileiro, de aceitar o uso de agrotóxicos que são proibidos em outros países? O que isso demonstra sobre a política brasileira em relação à saúde e à agricultura? Nesse sentido, como vê a atuação da CTNBio e da Anvisa?
Victor Pelaez Alvarez – Essa é uma boa pergunta. Por ser um grande exportador agrícola e exportador para alguns países que têm maior rigor no controle dos produtos, como a União Europeia e os Estados Unidos, o Brasil deveria ter um cuidado maior em termos de harmonização, visto que ele tem autorizado uma série de agrotóxicos que são proibidos nesses países, inclusive alguns na China. A China é mais cuidadosa no sentido de harmonizar sua legislação com países da União Europeia, e o Brasil, nesse sentido, acaba ficando atrasado nesse processo. Por ser o maior mercado mundial em crescimento, o país também sofre a pressão das empresas que tentam vender produtos que já não podem ser vendidos em outros países. E aí, obviamente, a venda depende do grau de rigor da legislação brasileira.

Como a legislação brasileira diz que o registro de um produto agrotóxico tem um prazo indeterminado, diferentemente, por exemplo, de países pertencentes à União Europeia, que têm prazos de dez anos, o ônus da prova para retirar um produto do mercado é do órgão regulador. Diante desse esforço da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa de rever quatorze ingredientes ativos que hoje teriam um risco potencial à saúde humana, as empresas utilizam-se de artifícios legais e pedem a cassação do processo de revisão dos agrotóxicos na Justiça. Todos esses pedidos de liminares foram atendidos inicialmente pelos juízes e depois revertidos. Aí a estratégia é para ganhar tempo, mas isso gera um grande desgaste para uma agência reguladora, que tem pessoal, recursos humanos e financeiros escassos.

Na medida em que a regulação no Brasil é feita por três órgãos, o Ministério da Agricultura (que avalia a eficácia agronômica), o Ministério do Ambiente (que avalia os impactos ambientais) e a Anvisa, do Ministério da Saúde (que avalia o impacto à saúde humana), acaba prevalecendo uma lógica de mercado de curto prazo, que tem o efeito bumerangue, porque o Brasil acaba exportando alimentos com resíduos de agrotóxicos para mercados em que tais produtos são proibidos. O exemplo mais claro disso foi a exportação do suco de laranja para os Estados Unidos com o resíduo de um fungicida, o Carbendazim [2] que é proibido lá. Bom, isso fez com que os produtores de suco de laranja tivessem um prejuízo de milhões de dólares. Então, veja que, de um lado, a agricultura está ligada ao mercado e, de outro, à saúde, como se fossem variáveis distintas. Trata-se de um falso dilema.

Para os mercados exigentes, cada vez mais a variável saúde é uma variável de mercado, que garante acesso a ele e dá credibilidade àquele que toma cuidado com a qualidade de seus produtos. O Brasil, ao não ter esse cuidado, ao se submeter à lógica das empresas, se submete a uma minoria e entra em conflito com o próprio desinteresse da agricultura nacional. A maneira de se colocar o problema é totalmente equivocada, no sentido de que haveria uma dicotomia entre saúde e agricultura, ou saúde e mercado. Pelo contrário, os dois devem andar juntos e isso faz parte, ou deveria fazer parte, de um país com grande biodiversidade, preocupado em garantir padrões de qualidade em termos ambientais e à saúde humana. Enfim, essa preocupação com a qualidade dos alimentos faz parte de qualquer lógica de produção moderna, avançada etc. O Brasil é ainda bastante atrasado nessa discussão, na problematização dessas questões, na incorporação dessa temática na agenda de discussão das políticas públicas. O governo se submete à bancada ruralista, que está longe de perceber a realidade dos mercados consumidores dos países ricos.

IHU On-Line – Uma das justificativas para o aumento do uso de agrotóxico é a expansão da agricultura no país. Como vê essa justificativa? É possível produzir, na escala brasileira, sem o uso dos pesticidas?
Victor Pelaez Alvarez – Tudo isso é um processo. Veja que a chamada Revolução Verde, que começa depois da Segunda Guerra Mundial, expande um modelo de produção com o uso intensificado de produtos químicos, de sementes etc., levou algumas décadas para se consolidar. Da mesma forma, hoje é possível se produzir em grande escala, sim, com o uso racional dos insumos, principalmente dos agrotóxicos e fertilizantes químicos.

O fato é que os agrotóxicos são incentivados, são isentos de IPI, tem redução de até 60% do ICMS. Portanto, toda lógica econômica é voltada para a redução do preço no intuito de incentivar a produção e o consumo destes produtos. Durante muito tempo o sistema de créditos no Brasil só concedia créditos para o agricultor que usasse agrotóxicos, quer dizer, havia um incentivo ao consumo desses produtos. Falta ao Brasil uma política de racionalizar o uso desses artigos.

Se você produzir em pequenas propriedades, por exemplo, por sistemas agroecológicos ou que usam uma quantidade muito menor de agrotóxicos, a soma disso dará a escala em nível regional e nacional. Novamente, trata-se da forma como se coloca o problema, como se pensa uma política agrícola integrada e preocupada com as questões ambientais.

domingo, 30 de setembro de 2012

Presidente da Cáritas Brasileira é nomeado novo bispo de Santarém

Presidente da Cáritas Brasileira é nomeado novo bispo de Santarém
Dom Flávio Giovenale, atual bispo de Abaetetuba, no Pará, e presidente da Cáritas Brasileira, foi nomeado no último dia 19 de setembro pelo Papa Bento XVI como o novo bispo da diocese de Santarém, também no estado do Pará. A posse ocorrerá em 16 de dezembro deste ano, quando dom Flávio deixa oficialmente a diocese de Abaetetuba onde atuou por 15 anos.
“Deixei de ser pároco para assumir como bispo em Abaetetuba em 1997. Nunca tinha rezado uma missa se quer nessa diocese, mas assim que cheguei fui acolhido com muito amor como se estivesse entre família”, relembrou. Segundo dom Flávio, assim que chegou a Abaetetuba, seu lema sempre foi: “que todos se sintam amados por Deus”. Classificada como uma experiência extraordinária, dom Flávio, em tom saudoso, deixou uma breve mensagem para o povo de Abaetetuba:
“O meu muito obrigado pelo amor que tive todos esses anos e por tudo que conseguimos fazer juntos. Eu era feliz e sabia e sempre me senti muito bem entre todos vocês. Saudade é o amor que fica. Sentirei saudades!”
Novos rumos
Dom Flávio ainda contou que algumas vezes chegou a conversar com amigos sobre seu tempo de atuação como bispo em uma mesma diocese. “Estou na metade da vida de um bispo, uma vez que aos 75 anos ocorre como se fosse nossa ‘aposentadoria’. Não estou cansado, mas é sempre interessante mudar. Após várias conversas decidi que não pediria transferência para outra diocese, mas se um convite viesse, eu aceitaria.”
Esse momento chegou! Dom Flávio ressaltou alguns desafios que espera encontrar como bispo de Santarém. Ele conhece os problemas sociais causados pelas grandes mineradoras instaladas na região, bem como o grande avanço do agronegócio por meio do plantio da soja. “No entanto, apesar de ter um conhecimento sobre a realidade social da região meu primeiro passo será de conhecer mais, escutar e perguntar muito, levando sempre comigo meu lema de que todos se sintam amados por Deus”, enfatizou.
Mensagem ao povo de Santarém
Caríssimas irmãs, caríssimos irmãos da Diocese de Santarém,
Paz e bênçãos!
Uns dias atrás recebi do Santo Padre a missão de ser irmão e bispo entre vocês, na grande Diocese de Santarém.
Aceitei logo e aqui estou para caminhar com vocês segundo a santa vontade de Deus.
Daqui a algumas semanas irei encontrá-los pessoalmente e começarei a viver com vocês. Vamos procurar nos amar porque esta é a vontade de Jesus e esta é a mais bela aventura da vida: amar e ser amado.
Minha nova missão chegou no mês da Bíblia: a Palavra de Deus que sempre guiou a vida da Diocese de Santarém, vai continuar a nos guiar também nos próximos anos: vamos amá-la, escutá-la, praticá-la; com ela vamos rezar e viver.
Nossa Senhora da Conceição é a padroeira da Diocese de Abaetetuba que deixo e da Diocese de Santarém que abraço: Ela será nossa mãe e mestra.
Que Deus abençoe a todos e cada um de vocês, e até breve, se Deus quiser!
Dom Flavio Giovenale, SDB
Bispo eleito de Santarém/PA